sexta-feira, 15 de junho de 2012

AJD e CIMI lançam campanha em apoio à causa indígena

logo apoio a causa indigena
Sociedade pede urgência em todas as ações
que envolvam direitos dos povos indígenas


  
Carta a Dilma e aos presidentes do STF, do Senado e da Câmara conclama os três poderes a priorizar as questões dos povos indígenas e repudia a PEC 215
São Paulo, 13 de junho de 2012 - Manifesto assinado por nomes de peso no cenário nacional e internacional e várias instituições e associações indígenas pedem políticas públicas para os povos indígenas, efetividade nas demarcações de suas terras, julgamento urgente das causas indígenas e rejeição à PEC 215.
O documento marca o lançamento da campanha âEu apoio a causa indígenaâ, que já recebeu a adesão de personalidades como Antonio Candido, Marilena Chauí, Noam Chomsky, Boaventura de Souza Santos, Eduardo Galeano, Dalmo Dallari, Fabio K. Comparato, Zé Celso, Letícia Sabatela, Wagner Moura, Frei Beto, entre outros.
A Campanha será lançada pela Associação Juízes para a Democracia (AJD) e pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI), hoje, dia 13 de junho, às 10h00, na sede da CNBB,  em  Brasília e a carta será entregue à presidente da República, Dilma Rousseff, ao presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Carlos Ayres Brito, e aos presidentes do Senado e da Câmara de Deputados, que receberão semanalmente as assinaturas colhidas.
Ao denunciar o âquadro de violência e espoliação dos povos indígenasâ, o texto aponta diversos descasos do poder público: âAs terras não são demarcadas com a presteza fincada na Constituição Federal; obras públicas são realizadas sem qualquer diálogo com as comunidades afetadas, descumprindo a necessidade de consulta e participação; órgãos oficiais permanecem vulneráveis às pressões dos poderes econômicos e políticos locais e/ou com estrutura precáriaâ.
A falta de delimitação e demarcação dos territórios tradicionais, diz a carta, aguça os conflitos que se retroalimentam da inoperância do Poder Judiciário. Por isso, do STF, cobra-se o cumprimento das normas: âA garantia de duração razoável do processo, direito humano previsto no artigo 5º, inciso LXXVIII, da CF, no tema das demarcações, é reforçada pelo marco temporal fixado para a União. Estas normas estão a exigir que o Poder Judiciário dê prioridade a estes processos. Clamamos ao STF que faça cessar o sofrimento do povo indígena. Somente desta forma haverá paz e será construída nova etapa da história brasileira, no qual a primazia da dignidade humana estará presente em sua integralidade, sob a luz da alteridade estabelecida na CFâ.
Os signatários da carta, que está disponível na internet e aberta para adesões, conclamam aos integrantes do Congresso Nacional âpara que cumpram a missão constitucional sobre o primado da submissão às cláusulas pétreasâ, razão pela qual rejeitam a PEC 215, projeto que consideram âum atentado contra o protagonismo dos povos indígenas no processo constituinte brasileiroâ. âà imperativo que o Congresso Nacional resguarde o direito de consulta prévia que os povos indígenas têm em relação a todas as propostas legislativas suscetíveis de afetá-losâ, diz a carta.
No site oficial da campanha, veja a íntegra da carta, a relação de signatários e acesse o sistema para adesões online.
Mais informações:
AJD - Associação Juízes para a Democracia
José Henrique Rodrigues Torres (presidente) - (19) 9174 75 68 / jhtorres@terra.com.br
Dora Martins (coordenadora questões indígenas) - (11) 8421 02 03 / martinsdora@gmail.com
CIMI - Conselho Indigenista Missionário
Renato Santana (imprensa) - (61) 9979-6912 / imprensa@cimi.org.br
Exmo. Sr. Presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Carlos Ayres Brito e Exmos(as) Srs(as) Ministros(as).
Excelentíssima Presidenta da República Federativa do Brasil, Sra. Dilma Vana Rousseff.
Exmo. Sr. Presidente do Senado, da Câmara Federal e Exmos(as) senadores(as) e deputados(as) federais.
O Estado brasileiro pinta o quadro de violência e espoliação dos povos indígenas, pois não cumpre o artigo 231 da Constituição Federal (CF), que reconhece aos povos indígenas o respeito à sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam. Não cumpriu o artigo 67 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, que obriga a União a concluir a demarcação das terras indígenas no prazo de cinco anos, a partir de 1988 (apenas 1/3 das terras indígenas foram demarcadas). Anda em descompasso com as normas internacionais, particularmente com a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho.
As terras não são demarcadas com a presteza fincada na CF; obras públicas são realizadas sem qualquer diálogo com as comunidades afetadas, descumprindo a necessidade de consulta e participação; órgãos oficiais permanecem vulneráveis às pressões dos poderes econômicos e políticos locais e/ou com estrutura precária. Assim temos o extermínio, a desintegração social, opressão, mortes, ameaças, marginalização, exclusão, fome, miséria e toda espécie de violência física e psicológica, agravada, especialmente, entre as crianças e jovens indígenas.
A falta de delimitação e demarcação dos territórios tradicionais aguçam os conflitos que se retroalimentam da inoperância do Poder Judiciário.  A falta de definição das demandas judiciais agrava a situação das comunidades indígenas.
No STF (e outras instâncias do Poder Judiciário) tramitam processos que tratam das terras indígenas. Premente que o STF julgue, em caráter de urgência e prioridade, todas as ações que envolvam os direitos dos povos indígenas.
A garantia de duração razoável do processo, direito humano previsto no artigo 5º, inciso LXXVIII, da CF, no tema das demarcações, é reforçada pelo marco temporal fixado para a União. Estas normas estão a exigir que o Poder Judiciário dê prioridade a estes processos. Clamamos ao STF que faça cessar o sofrimento do povo indígena. Somente desta forma haverá paz e será construída nova etapa da história brasileira, no qual a primazia da dignidade humana estará presente em sua integralidade, sob a luz da alteridade estabelecida na CF.
   Apelamos para a Presidenta da República, para que reverta este quadro dramático, concretizando os direitos constitucionais atribuídos aos índios. Para tanto, aguardamos que estruture e disponibilize o necessário para que seja resguardada a vida dos indígenas, que se dê garantia de segurança e proteção a eles; que se resguarde a incolumidade das comunidades indígenas em todos os aspectos, especialmente quanto aos direitos econômicos, sociais e culturais; que faça respeitar o caráter sagrado da terra atribuído pelos povos indígenas, providenciando em caráter de urgência as demarcações; que escute suas demandas quando da realização de obras públicas.
O direito ao prazo razoável também se aplica ao processo administrativo. Diante do longo período decorrido do prazo fixado na CF, urge que sejam implementadas políticas públicas para que todos os passos necessários para a regularização de todas as terras indígenas sejam efetivados com presteza.
Conclamamos aos membros do Congresso Nacional para que cumpram a missão constitucional sobre o primado da submissão às cláusulas pétreas, razão pela qual rejeitamos e repudiamos a PEC 215, que pretende retirar do Executivo o processo administrativo das demarcações e homologações de terras indígenas, transferindo-o para o Legislativo,substituindo critérios e competências administrativas técnicas, para inviabilizar as demarcações. Este projeto é sobretudo um atentado contra o protagonismo dos povos indígenas no processo constituinte brasileiro.
É imperativo que o Congresso Nacional resguarde o direito de consulta prévia que os povos indígenas têm em relação a todas propostas legislativas suscetíveis de afetá-los. 
                                 Os povos indígenas não podem esperar mais.
PRIMEIRAS ASSINATURAS:
Associação Juízes para a Democracia â AJD
Conselho Indigenista Missionário â CIMI
Antonio Candido de Mello e Souza, crítico literário
Eduardo Galeano, escritor
Dalmo de Abreu Dallari, jurista, prof. emérito da Fac. de Direito da USP
Fabio Konder Comparato, jurista , prof. emérito da Fac. de Direito da USP
Milton Hatoun, escritor
Fernando Morais, escritor
João Pedro Stédile, coordenador do MST e Via Campesina
Wagner Moura, ator
Leticia Sabatela, atriz
Kabengele Munanga, antropólogo, prof. titular da USP
Boaventura de Sousa Santos, sociólogo e prof. da Univ. de Coimbra
D. Erwin Kräutler - presidente do CIMI
José Henrique Rodrigues Torres- pres. da Associação Juízes para a
Democracia
D. Tomás Balduino, bispo emérito de Goiás e conselheiro da CPT
D.Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Felix do Araguaia
Frei Betto, frade dominicano e escritor
Michel Löwy, sociólogo e filósofo, diretor de pesquisas do CNRS - França
Helio Bicudo, jurista e ex-membro da CIDH
Plinio de Arruda Sampaio, jurista, presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA)
Antonio Brand, historiador
Hamilton Octavio de Souza, jornalista e prof. da PUC/SP
Conceição Lemes, jornalista
Lúcio Flávio Pinto, jornalista
Nita Freire, educadora, autora deâ Paulo Freire uma história de vidaâ
Marilena Chaui, filósofa e prof. da FFLCH/USP
Heloísa Fernandes, socióloga, USP e Escola Nacional Florestan Fernandes
Paulo Arantes, prof. aposentado USP
Regina Polo Müller, antropóloga, UNICAMP
Maria Arminda do Nascimento Arruda, prof do Dpto de Sociologia da USP
Ricardo Antunes, prof de Sociologia do Trabalho no IFCH/UNICAMP
João Alexandre Peschanski, sociólogo (UW-Madison), comitê editorial de Margem Esquerda
Ivone Gebara, prof. de filosofia e teologia
Chico Whitaker, membro da Comissão Brasileira Justiça e Paz
José Celso Martinez Corrêa, artista de teatro e pres.da As. Teatro Oficina Uzyna Uzona
Sérgio de Carvalho, dramaturgo e diretor da Cia do Latão
Mc Leonardo, cantor pres. da APA Funk
Osmar Prado, ator
Sergio Muniz, documentarista
Elizabeth Aracy Rondon Amarante, antropóloga
Maria Cecilia Rondon Amarante, prof.e orientadora educacional
ASSOCIAÇÕES
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - APIB
Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira - COIAB
Aty Guasu Kaiowá e Guarani
Conselho Continental da Nação Guarani
Articulação dos Povos Indígenas da Região Sul - ARPINSUL
Articulação dos Povos Indígenas da Região Sudeste - ARPINSUDESTE
Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, MG e ES - APOINME
Kuña Aty Guassu
Comissão do Povo Terena de Luta pela Terra
Comitê Nacional de Defesa dos Povos Indígenas de MS â CONDEPI
Associação Wyty-Cate dos povos Timbira do MA e TO.
Coord. das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do MA - COAPIMA
Programa Pindorama - Indígenas Universitários da PUC-SP.
Associação Böu â Xavante â Terra Indígena Marãiwatsédé
Associação Indígena Nambikwara do Cerrado - ASINAC
Associação Kolimace â Terra Indígena Pirineus de Souza
Associação Waklitesu- Nambikwara â Terra Indígena Tirecatinga
Associação Indígena Negarotê e Tucumã â APINET
Organizaçã o dos Povos Indígenas Xavante - OPIX
Organização das Mulheres Indígenas Takiná
Organização dos Professores Indígenas de Mato Grosso â OPRIMT
Conselho de Caciques do Oeste de Santa Catarina
Comissão de Articulação dos Povos Indígenas de São Paulo
Comissão Nhemongueta - Guarani M´bya do Litoral de Santa Catarina
União dos Povos Indígenas do Vale do Javari - Univaja
Associação Kanamary do Vale do Javari - Akavaja
Associação Marubo de Sao Sebastião - Amas -
Associação Indigena Matis - Aima
Associação de desenvolvimento Cultural/Aldeia Maronal - Asdec
Organização Geral Mayoruna - OGM
Hotukara - Associação Yanomami
Organização das Mulheres Indígenas de Roraima - OMIR
Conselho Indígena de Roraima â CIR
Movimento dos Povos Indígenas da Bahia - MUPOIBA
Comissão dos Jovens Indígenas do Regional Leste - CAJIRLE
Associação Indígena Hãhãhãe da Aldeia Baheta - AIHIAB
Associação Indígena Tupinambá da Serra do Padeiro. AITPS:
Federação Indígena das Nações Pataxó e Tupinambá do extremo sul da Bahia - FINPAT
Comissão das Mulheres Indígenas do sul da Bahia - COMISULBA
Associação Indígena Hãhãhãe da Água Vermelha - AIHIAV
Associação Nacional dos Procuradores da República - ANPR
Centro pela Justiça e Direito Internacional - CEJIL
Rede Social de Justiça e Direitos Humanos
Movimento do Ministério Público Democrático - MPD
Fian Brasil - Foodfirst Information and Action Network.
Instituto Terra Trabalho e Cidadania - ITTC
Instituto das Irmãs da Santa Cruz
Coordenadoria Ecumênica de Serviços - CESE
Justiça Global

terça-feira, 12 de junho de 2012

Conferência Estadual da Criança do Maranhão começou nesta segunda


“Mobilizando, Implementando e Monitorando a Política e o Plano Decenal de Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes”

Com o objetivo de debater e contribuir para a política estadual e o plano decenal dos Direitos de Crianças e Adolescentes, o Conselho Estadual da Criança e do Adolescente do Maranhão irá realizar nos dias 11,12 e 13, no Espaço Renascença (Rua Carutapera nº 05, Renascença II, próximo ao Conselho Regional de Medicina), a IX Conferência Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente.

O evento terá início no dia 11.06 às 13h com o credenciamento dos participantes que serão divididos em cinco grupos para discutir 1) a Promoção dos Direitos de Crianças e Adolescentes; 2) a Proteção e Defesa dos Direitos, 3) o Protagonismo e Participação de Crianças e Adolescentes, 4) o Controle Social da Efetivação dos Direitos, 5) e a Gestão da Política Nacional dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes, que são os eixos temáticos da Conferência.

A abertura oficial da Conferência ocorrerá às 16h com a palestra magna que será feita por um conselheiro nacional dos direitos da criança e do adolescente. São esperados cerca de 700 pessoas de todo o Maranhão. Estão programadas mesas-redondas, palestras, painéis e apresentações culturais.

Protagonismo e Participação de Crianças e Adolescentes
Todas as Conferências estaduais esses ano trazem uma novidade que é a participação de adolescentes fazendo a cobertura da Conferência. Para este grupo foram selecionados 10 jovens de várias organizações. São eles: Coletivo Jovem Nossa São Luís, Centro de Cultura Negra do Maranhão, PLAN, SESI (projeto Vira Vida) e Casa da Acolhida Marista.

Para realizar esta tarefa os adolescentes passaram por uma formação em educomunicação com os jornalistas Luciano Nascimento e Jeane Pires que focou na importância do comunicar, em como produzir notícia e nas técnicas sobre imagem e texto. Além disso, a formação foi principalmente um espaço de reflexão sócio-educativa, para a formação e mobilização destes adolescentes, que se pauta na democracia e na educação para a paz.

PROGRAMAÇÃO
Segunda-feira – 11/06/2012
13h – Recepção e credenciamento dos participantes
16h – Abertura
Conferência Magna – “Mobilizando, implementando e monitorando a Política e o Plano Decenal de Direitos Humanos de Crianças e Adolescentes no Estado do Maranhão” – Conselheiro do CONANDA
Apresentação da pesquisa “Mapeamento do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente no Maranhão” – AKONI
Terça-feira – 12/06/2012
08h – Café
09h – Regimento Interno
Lançamento da Campanha Nacional de Combate ao Trabalho Infantil
09h45 – O direito à participação dos adolescentes.
Palestrante: Enilson Costa Ribeiro
10h10 – Subsídios para a elaboração das propostas
Plano Decenal e Política Nacional dos Direitos Humanos de Crianças e Adolescente
Painelista: Luiza de Fátima Amorim Oliveira
Conceitos de Mobilização, Implementação e Monitoramento
Metodologia dos trabalhos de grupos
Painelista: Elisângela Correia Cardoso
Processo de Escolha dos Delegados para a Conferência Nacional.
Painelista: Elisângela Correia Cardoso

Almoço
14h – Trabalhos em Grupos por eixo para análise e definição das propostas
1º Momento – instalação dos grupos
2º Momento – Leitura e análise das diretrizes, objetivos estratégicos e ações elaboradas nas conferências municipais
Definição das ações prioritárias para a IX Conferência Nacional e das propostas para o âmbito estadual
17h30 – Reunião por categoria para escolha dos seus delegados
18h – Encerramento dos trabalhos do dia

Quarta-feira – 13/06/2012  
08h – Café
08h30 – Plenária de eleição das ações
09h – Eleição dos Delegados para a IX Conferência Nacional
Apresentação das indicações conforme a categoria
12h – Encerramento
Prestação de contas dos recursos utilizados na IX Conferência Estadual
Informes sobre a participação da delegação do Maranhão na IX Conferência Nacional
Avaliação da Conferência
12h30 – Almoço

Mais Informações:
Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente – CEDCA-MA
Luiza de Fátima Oliveira Amorim – Presidente
(98) 3222 4003
Maria Ribeiro – Secretária
(98) 3231 1445 / 8709 5905
Elisângela Cardoso – Conselheira
(98) 8709 5907

domingo, 3 de junho de 2012

NOTA DE APOIO E PREOCUPAÇÃO DIANTE DA SITUAÇÃO DO QUILOMBO RIO DOS MACACOS - BAHIA


 

As organizações não-governamentais, movimentos sociais e assessorias que subscrevem esse documento vêm por meio deste demonstrar sua solidariedade à Comunidade Quilombola do Rio dos Macacos (BA), assim como, manifestar sua preocupação diante dos últimos fatos de ampla repercussão nacional e internacional que envolvem ameaças de violações de direitos em suas dimensões políticas, sociais, culturais, econômicas, ambientais e históricas.  

A comunidade quilombola do Rio dos Macacos é uma comunidade negra rural, composta por cerca de quarenta famílias, que remonta mais de um século de existência em área do Recôncavo Baiano, região do estado onde desde o século XVII se instalaram os engenhos produtores de cana-de-açúcar. Atualmente, a comunidade encontra-se cravada no atual município de Simões Filho, região metropolitana da cidade de Salvador. 

Os habitantes realizam suas atividades rurais como a pesca e o extrativismo de forma comunitária, utilizando áreas de uso comum e perpetuam, assim, a tradição cultural de viver dos seus antepassados, conforme o relato apresentado ao Ministério Público Federal pela anciã Maurícia Maria de Jesus(111 anos de idade) : “essa terra é dos tempos dos meus avós. Meu pai, Severiano dos Santos, já falecido, nasceu aqui em 1910 e teve vinte e dois filhos aqui. O pai dele, José Custódio Rebeca, também nasceu aqui.”

A Marinha do Brasil começou no início dos anos de 1970 a edificar as construções do que viria a ser, futuramente, a Base Naval de Aratu, na zona suburbana do bairro de Paripe, Salvador. No início desta mesma década, a Marinha construiu a Barragem do Rio dos Macacos, que dividiu ao meio a comunidade quilombola.

Nesse momento é que são iniciadas as tentativas, por parte da Marinha, de expulsão das famílias. A administração militar passou então a impor diversas proibições, entre elas a de construir ou reformar suas casas, manter ou iniciar roças de subsistência, criar gado de pequeno ou grande porte, entrar e sair do território livremente, receber parentes e convidados, realizar reuniões ou se organizar politicamente, entre outros impedimentos.

Destaca-se que além da não titulação/regularização da área quilombola, as famílias não têm direito à água encanada, energia elétrica e saneamento básico, além disso, o correio postal, documentos e cartas endereçadas aos moradores da comunidade passam por triagem da Marinha, são 04 (quatro) décadas de intenso tensionamento para que o conflito atinja dimensões insuportáveis, porém, a comunidade não esmoreceu.  

No dia 28.05 do corrente ano, foi veiculado em diversas redes sociais mais uma situação de extrema violência contra a comunidade Rio dos Macacos, pois, a Marinha utilizando um grupo de fuzileiros fortemente armados invadiu o local para derrubar a casa de um morador que estava reerguendo uma parede danificada pelas chuvas do final de semana, a ação desastrosa atingiu uma criança e gerou novas tensões.

A situação poderia parecer apenas um fato corriqueiro diante de tantas outras tentativas de intimidações e direitos negados, porém, há indícios de que está em curso uma retaliação sistemática contra a comunidade em face do grau de articulação local, nacional e internacional que a comunidade vem conseguindo nos últimos anos, em especial a Defensoria Pública da União, o Ministério Público Federal, a Associação de Advogados/as de Trabalhadores Rurais (AATR), a Comissão Pastoral da Terra (CPT/BA) e outros.

Concorre para tal visibilidade a perspectiva de uma decisão na Justiça Federal que aponte uma solução para o conflito com a permanência da comunidade no local, assim como, uma visita programada para próxima segunda-feira (04.06), no qual estão confirmadas a participação da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos/as Deputados/as, Procuradoria Geral da República, Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, organizações e assessorias de apoio. Até o momento estão agendadas uma visita a Comunidade, assim como, reuniões com o Governo do Estado da Bahia e com o Secretário Geral da República. 

O Estado brasileiro, através das suas instituições devem proporcionar o cumprimento dos princípios, objetivos e leis que foram promulgadas na Constituição Federal de 1988, assim como, em tratados, pactos e declarações internacionais, a Constituição reconhece a necessidade de titulação das áreas quilombolas em seu Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, compreende a necessidade e promove o reconhecimento cultural, social e histórico (material e imaterial) da contribuição dos afro-brasileiros para construção de uma sociedade plural (Artigos 215 e 216 da Constituição).

No campo do direito internacional, ratificou a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho que trata do autorreconhecimento, uso do território e garantia para que as comunidades possam manter seus modos de vida, sejam elas comunidades indígenas, quilombolas e populações tradicionais.

No momento em que desafios no campo da regulamentação do processo de Consulta prevista na Convenção 169 da OIT são discutidos e estimulados pelo próprio Governo Federal através do Itamaraty e demais Ministérios, assim como, persiste a batalha jurídica pela manutenção do Decreto 4.887/03 no Supremo Tribunal Federal, na qual dezenas de organizações de direitos humanos, associações quilombolas e outros movimentos se acostam ao processo na defesa do direitos quilombolas, a ingerência contínua da Marinha no quilombo do Rio dos Macacos caminha na contramão da história e configura-se como um atentado não apenas a essa comunidade quilombola, mas a todas as outras no Brasil e América Latina, cabendo a responsabilização interna e internacional do Estado brasileiro sobre qualquer situação na qual os agentes do Estado utilizem a força coercitiva para intimidação e negação de direitos.

Assinam esta nota:
Centro de Assessoria Popular Mariana Criola.
Centro de Referência em Direitos Humanos – UFPB.
Comissão Pastoral da Terra – Regional Nordeste 2.
Dignitatis – Assessoria Técnica Popular.
GT Combate ao Racismo Ambiental[1] da Rede Brasileira de Justiça Ambiental.
Justiça Global.
Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos.
Terra de Direitos.
Plataforma Dhesca Brasil.


[1]Entidades que compõe o GT de Combate ao Racismo Ambiental: AATR – Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia – Salvador – BA; Amigos da Terra Brasil – Porto Alegre – RS; ANAÍ – Salvador – BA;Associação Aritaguá – Ilhéus – BA;Associação de Moradores de Porto das Caixas (vítimas do derramamento de óleo da Ferrovia Centro Atlântica)  – Itaboraí – RJ; Associação Socioambiental Verdemar  – Cachoeira – BA;CEDEFES (Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva) – Belo Horizonte – MG;Central Única das Favelas (CUFA-CEARÁ) – Fortaleza – CE; Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (CEDENPA) – Belém – PA; Coordenação Nacional de Juventude Negra – Recife – PE; CEPEDES (Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul da Bahia) – Eunápolis – BA;CPP (Conselho Pastoral dos Pescadores) Nacional ;CPP BA – Salvador – BA;CPP CE – Fortaleza – CE;CPP Nordeste – Recife (PE, AL, SE, PB, RN);CPP Norte (Paz e Bem) – Belém – PA;CPP Juazeiro – BA;CPT – Comissão Pastoral da Terra Nacional;CRIOLA – Rio de Janeiro – RJ;EKOS – Instituto para a Justiça e a Equidade –  São Luís – MA; FAOR – Fórum da Amazônia Oriental – Belém – PA; Fase Amazônia – Belém – PA; Fase Nacional (Núcleo Brasil Sustentável) – Rio de Janeiro – RJ;FDA (Frente em Defesa da Amazônia)  – Santarém – PA;FIOCRUZ – RJ;Fórum Carajás – São Luís – MA;Fórum de Defesa da Zona Costeira do Ceará – Fortaleza – CE;FUNAGUAS – Terezina – PI;GELEDÉS – Instituto da Mulher Negra  – São Paulo – SP;GPEA (Grupo Pesquisador em Educação Ambiental da UFMT) – Cuiabá – MT; Grupo de Pesquisa Historicidade do Estado e do Direito: interações sociedade e meio ambiente, da UFBA – Salvador – BA;GT Observatório e GT Água e Meio Ambiente do Fórum da Amazônia Oriental (FAOR)  - Belém – PA;IARA – Rio de Janeiro – RJ;Ibase – Rio de Janeiro – RJ;INESC – Brasília – DF; Instituto Búzios – Salvador – BA;Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense – IF Fluminense – Macaé – RJ;Instituto Terramar – Fortaleza – CE;Justiça Global  – Rio de Janeiro – RJ;Movimento Cultura de Rua (MCR) – Fortaleza – CE;Movimento Inter-Religioso (MIR/Iser) – Rio de Janeiro – RJ;Movimento Popular de Saúde de Santo Amaro da Purificação (MOPS) – Santo Amaro da Purificação – BA;Movimento Wangari Maathai – Salvador – BA;NINJA – Núcleo de Investigações em Justiça Ambiental (Universidade Federal de São João del-Rei) – São João del-Rei – MG;Núcleo TRAMAS (Trabalho Meio Ambiente e Saúde para Sustentabilidade/UFC) – Fortaleza – CE;Observatório Ambiental Alberto Ribeiro Lamego – Macaé – RJ;Omolaiyè (Sociedade de Estudos Étnicos, Políticos, Sociais e Culturais)  – Aracajú – SE;ONG.GDASI – Grupo de Defesa Ambiental e Social de Itacuruçá – Mangaratiba – RJ;Opção Brasil – São Paulo – SP;Oriashé Sociedade Brasileira de Cultura e Arte Negra  – São Paulo – SP;Projeto Recriar – Ouro Preto – MG;Rede Axé Dudu  – Cuiabá – MT;Rede Matogrossense de Educação Ambiental – Cuiabá – MT;RENAP Ceará – Fortaleza – CE; Sociedade de Melhoramentos do São Manoel – São Manoel – SP;Terra de Direitos – Paulo Afonso – BA e TOXISPHERA – Associação de Saúde Ambiental – PR. Participantes individuais: Ana Almeida – Salvador – BA;Ana Paula Cavalcanti - Rio de Janeiro – RJ;Angélica Cosenza Rodrigues - Juiz de Fora – Minas;Carmela Morena Zigoni – Brasília – DF; Cíntia Beatriz Müller – Salvador – BA;Cláudio Silva – Rio de Janeiro – RJ;Daniel Fonsêca – Fortaleza – CE;Daniel Silvestre – Brasília – DF;Danilo D’Addio Chammas - São Luiz – MA; Diogo Rocha – Rio de Janeiro – RJ/ Florival de José de Souza Filho – Aracajú – SE; Igor Vitorino – Vitória – ES;Janaína Tude Sevá – Rio de Janeiro – RJ;Josie Rabelo – Recife – PE; Juliana Souza – Rio de Janeiro – RJ; Leila Santana – Juazeiro – BA; Luan Gomes dos Santos de Oliveira – Natal – RN; Luís Claúdio Teixeira (FAOR e CIMI) Belém- PA; Maria do Carmo Barcellos – Cacoal – RO; Mauricio Sebastian Berger – Córdoba, Argentina; Norma Felicidade Lopes da Silva Valencio – São Carlos – SP; Pedro Rapozo – Manaus – AM; Raquel Giffoni Pinto – Volta Redonda – RJ; Ricardo Stanziola – São Paulo – SP; Ruben Siqueira – Salvador – BA; Rui Kureda – São Paulo – SP; Samuel Marques – Salvador – BA; Tania Pacheco - Rio de Janeiro – RJ; Telma Monteiro – Juquitiba – SP; Teresa Cristina Vital de Sousa – Recife – PE; Tereza Ribeiro   – Rio de Janeiro – RJ e Vânia Regina de Carvalho – Belém - PA