segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Juiz critica magistratura encastelada que não ouve a voz das ruas


(28.10.11)
Por Átila Andrade de Castro, 
juiz de Direito na comarca de Belo Horizonte (MG).

 
Após décadas de poder, alguns dos mais conhecidos tiranos do nosso tempo foram expulsos de seus palácios situados no norte da África pela força do movimento popular.

No Cairo, em Trípoli e em Túnis a população se deu conta de que não se deve dar poder a quem não oferece contraprestação. Iniciaram com certa timidez a revolução que ficou conhecida como Primavera Árabe e o movimento foi tomando corpo, forma e substância, atravessando fronteiras e mudando uma realidade que parecia imutável.

Enquanto isso, encastelados em seus palácios, os ditadores de plantão faziam ouvidos moucos à voz das ruas. Diziam que era conspiração de potências ocidentais, que a suposta revolta não passava de movimentos isolados e que não abririam mão do poder que consideravam legítimo. Continuaram a fazer refeições em talheres de ouro, a viajar em aviões particulares intercontinentais e a desfrutar de todo o luxo e conforto que o poder proporciona.

Não ouviram o alerta. Não negociaram e nem se dispuseram a abrir mão de privilégios e nem a oferecer serviços decentes aos seus “súditos”. O resultado todo mundo conhece. Foram todos banidos de suas fortalezas, expulsos, presos e mortos.

Qual a semelhança de tal momento histórico com o Judiciário brasileiro?

É visível a insatisfação de todos os segmentos da sociedade com a justiça brasileira. O serviço é precário, ineficiente, artesanal, não oferece segurança jurídica e é excessivamente aleatório, tanto em termos de conteúdo decisório quanto em termos de procedimento, pois está sempre sujeito à idiossincrasia do juiz que receber a causa. 
 
Junte-se a isso a absoluta falta de investimentos de peso em tecnologia e em treinamento de servidores. O resultado todo mundo conhece: justiça lenta – e, portanto, frequentemente injusta -, cara e improdutiva.

A sociedade já percebeu a gravidade do problema. Não há país submetido a padrões ocidentais de civilização que consiga crescer e progredir e nem sociedade que se mantenha saudável com o serviço prestado pelo judiciário de hoje.

Enquanto isso, onde estão os membros do poder, que poderiam -  e deveriam - mudar este estado de coisas? 
 
Muitos estão em seus “castelos”, lutando por frações de poder, medalhas, privilégios e títulos. Não ouvem a voz das ruas e nem se mostram permeáveis à crítica externa e às demandas sociais.

Pelo contrário, atribuem tudo isso a conspiradores anônimos e silenciosos que desejam enfraquecer o poder. Também não admitem jamais abrir mão de luxos que atualmente não se justificam, como duas férias anuais. 
 
Chega-se ao absurdo de se promover silenciosamente uma disputa surda entre juizes de segundo grau da justiça estadual e de segmentos da justiça federal pelo “privilégio” de usar a denominação “desembargador”, como se o tratamento dispensado ao juiz fosse lhe conferir sabedoria e garantir a prestação jurisdicional célere que a população tanto deseja.

Também não se vê por parte de associações que representam os juízes propostas de modernização, de incorporação de tecnologias, de simplificação e otimização de procedimentos e rotinas de trabalho para atingir padrões mínimos de qualidade e eficiência. Continuamos, como há séculos, reproduzindo modelos de decisão e de termos de  audiência que já eram usados nos tempos da inquisição.

Enfim, fica muito claro que se a autocrítica não ocorrer e as mudanças tão legítimas desejadas pela nossa sociedade não forem implementadas de dentro para fora, virão certamente de fora para dentro. O CNJ é o primeiro exemplo disso.

Por certo, se continuarmos surdos e inertes, alheios ao que acontece à nossa volta, seremos, ao final, expulsos de nossos castelos, sem nossos tão desejados títulos, comendas e condecorações.

Espero apenas que também não sejamos mortos como animais e enterrados em cova rasa no deserto. 
 
Que antes do fim a autocrítica tome conta de nosso meio e sociedade tenha enfim o Poder Judiciário que merece! 
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(*) Artigo publicado originalmente em blogs de Minas Gerais; reproduzido pelo jornal Folha de S. Paulo; e inserido no clipping interno do CNJ.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

CCN facilita oficina sobre gestão de RESEX em Frechal

Produção de farinha no Quilombo Frechal

O CCN facilitou ontem (27) uma reunião formativa com os conselheiros das comunidades tradicionais que comporão o Conselho Deliberativo (CD) da Reserva Extrativista de Frechal, município de Mirinzal/MA.

O Processo formativo visa emponderar os conselheiros das comunidades da RESEX sobre as normas de funcionamento do CD. A reserva é formada pelas comunidades de Frechal, Rumo e Deserto.

O Conselho Deliberativo da RESEX de Frechal tomará posse no dia 04 de novembro, às 19hs, no Casarão Cultural da comunidade de Frechal. Nos dias 05 e 06, serão discutidos e aprovados o Regimento Interno do CD e o Plano de Uso e Manejo da RESEX.

O Conselheiro Deliberativo (CD) é o órgão responsável por gerir a Reserva Extrativista. Sobre Presidência do Instituto Chico Mendes da Biodiversidade, o CD é composto por representantes de órgãos públicos, de organizações da sociedade civil e das populações tradicionais residentes na área.

Na Resex de Frechal, o CD é formado por 20 instituições/órgãos, sendo 12 entidades locais, o CCN, a ACONERUQ, o STTR, além da Prefeitura Municipal, da UFMA, UEMA, SEMA, e ICMBio - que preside o Conselho - como representantes do Poder Público.

Ao final da reunião, foi entregue um Parecer Jurídico sobre a titulação da área conforme preceitua o artigo 68 do ADCT.

Elaborado pela Assessoria Jurídica do CCN, o parecer aborda a atual situação das comunidades inseridas dentro de uma RESEX, restrições de uso, possibilidade de alteração de categoria de Unidade de Conservação, bem como a possibilidade da titulação do território em nome da comunidade, tendo em vista que à época da criação da Reserva, em 1992, não existia legislação que regulamentasse o referido dispositivo constitucional.

HISTORICO.

A RESEX de Frechal  foi criada através do Decreto Presidencial nº 536, de 20/05/1992. Está localizada no município de Mirinzal, Estado do Maranhão, com uma área de aproximadamente 9.823,64 ha (nove mil oitocentos e vinte e três hectares e sessenta e quatro centiares). Na comunidade quilombola de Frechal residem aproximadamente 100 famílias, descendentes de negros, escravos africanos, que, segundo pesquisa do Projeto Vida de Negro , são oriundos das etnias Mandica, Benguela, Mina, Cabinda, Angola e Congo.

O processo de construção de identidade étnica da comunidade de Frechal deve ser considerado como um ponto favorável para o desenvolvimento de toda a região, tendo em vista que, o reconhecimento jurídico como Reserva Extrativista contribuiu sobremaneira para o fortalecimento da questão étnico-racial. Importante ressaltar que, nesse contexto do reconhecimento jurídico do território da comunidade quilombola, várias tradições histórico-sociais foram fortalecidas, incluindo a preservação do casarão da antiga fazenda, construído no ano de 1792, que atualmente sedia a rádio comunitária, a sede da Associação, bem como várias atividades culturais e de formação desenvolvidas pela comunidade.

Escrito por Igor Almeida

ADI Quilombola será discutida hoje na TV Justiça


Assista: debate sobre Adin Quilombola na TV Justiça nesta sexta-feira (28)

  
A TV Justiça irá exibir a partir desta sexta-feira (28) o debate realizado no programa “Audiência Pública” sobre a ADIn 3239, que está na pauta de julgamentos do STF sem data definida para ser votada. A ADIn, proposta pelo PFL, hoje DEM, questiona a constitucionalidade do Decreto Federal 4887/03, o qual viabiliza a realização da política pública de titulação das terras das comunidades remanescentes de quilombo.

  A garantia do direito à terra para comunidades quilombolas foi questionada pelos ruralistas pois implica na democratização do acesso à terra e viabiliza um modelo de desenvolvimento pautado pelo respeito à diversidade e às minorias. Na avaliação da Terra de Direitos, é preciso garantir o debate não apenas na TV Justiça, mas também no próprio STF, através de uma Audiência Pública que anteceda a votação da ADIn, conferindo especial prioridade para participação direta das comunidades quilombolas.

  Nesse sentido, a iniciativa da TV Justiça é importante, apesar de não ter contado com a participação de quilombolas no programa. O debate foi feito com a presença de defensores do direito à terra das comunidades quilombolas – Fernando Prioste (Terra de Direitos), Junior Fideles (Procurador Geral do INCRA) e Eloi Ferreira de Araújo (Presidente da Fundação Cultural Palmares) e também dos opositores aos direitos das comunidades quilombolas: Francisco de Godoy Bueno (Sociedade Rural Brasileira), Waldir Colatto (PSDB) e Paulo Cesar Quartiero (DEM).

Serviço:
Programa Audiência Pública sobre ADIn Quilombola
Exibição: 28 (sexta) às 20h; 29 (sábado) às 9h30min, 30 (domingo) às 23h e 2 (quarta) às 9h. 
Canal: A TV Justiça pode ser assistida em alguns estados pela TV Aberta e em outros apenas pela TV a cabo, através do canal 117 da Sky e canal 6 da Net. Para saber da sua região, acesse o site da TV Justiça: http://www.tvjustica.jus.br/
Internet: Em breve, o conteúdo do programa estará disponível pelo Canal da TV Justiça no You Tube.

Com informações da Organização Terra de Direitos